A aceitação

Tudo começou em março de 2012, minha mãe chegou em casa com vários exames em mãos. Estávamos na sala, ela sentou no sofá e começou a falar que foi ao médico e que ele lhe deu a notícia do câncer de mama. Eu senti uma leve tontura naquele momento, mas não reagi. Ela continuou falando e falando.  Levantei e disse “Vou jantar com as meninas hoje, tenho que me arrumar”. Sem mais, nem menos, levantei e fui ao meu quarto me arrumar.

Jantei com minha amigas, era uma noite de sushi. Não contei nada pra ninguém. Quando voltei para casa minha mãe estava no sofá bordando e assistindo filme, eu sentei numa cadeira e disse “Me conta de novo, o que foi que o médico disse?”  E ela repetiu tudo. No mesmo tom, sem ênfases, sem emoções, sem rodeios – como se fosse algo muito comum. Naquele momento nem ela tinha absorvido aquele monte de informação, mas quando ela terminou de contar eu chorei. Não foi fácil entender que aquilo estava acontecendo com ela. Era tão surreal que a gente não entendia o quão grave era essa notícia.

Alguns dias depois eu fui pra Buenos Aires, vi uma camiseta do pink ribbon e pensei “não vou levar, vai que o médico se enganou e não é nada disso, vamos aguardar os novos exames e uma nova consulta com outro médico”. Alguns dias depois veio a (re)confirmação, ela estava mesmo com câncer de mama esquerda.

Quando estavam agendando a cirurgia para realizarem a masectomia, ela comentou que estava com um derrame no pulmão, consequente de uma pneumomia que tivera meses antes. O médico achou estranho um derrame durar meses. Pediu mais exames e então veio a segunda notícia: Não era um derrame que ela tinha no pulmão, era metástase. Em outras palavras, o câncer já tinha espalhado.  Como se não bastasse, a metástase também estava nos ossos. Naquele instante meu mundo caiu. Não conseguia aceitar que minha mãe estava com “tudo isso”.

A única coisa que eu pensava era “Por que minha mãe?”. Ela sempre foi uma boa pessoa, que ajudava ao próximo, não falava mal de ninguém, não brigava com as pessoas, cuidava da saúde, acordava cedo para caminhar, tinha hábitos saudáveis e acima de tudo, era a minha mãe! Eram centenas de pensamentos que me atormentavam, pois eu não conseguia imaginar a minha vida sem a minha mãe.

Por muito tempo eu criei um tipo de bloqueio, ignorava o assunto, não dava continuidade nas conversas sobre o tratamento. Foi um mecanismo de defesa que criei inconscientemente. Quando começaram as aplicações de quimioterapia (era a quimio vermelha, que faz perder o cabelo) tudo piorou, a cada aplicação eu tinha febre e dor de garganta, não conseguia sair da cama pra cuidar dela nos primeiros dias. Foi assim durante os seis meses de tratamento, o que eu me arrependo é de não ter procurado um psicólogo naquela época. Ela precisava de mim e eu estava me omitindo sem perceber.

Aceitar a realidade é fundamental para oferecer aos seus pais mais cuidados, carinho e atenção. A fase de tratamento de quimioterapia balança muito com os sentimentos, a percepção de vida, a espiritualidade (independente da religião), o ego, a autoestima, a vida social e financeira – Parece que nada mais se encaixa e é nesse momento que foi preciso ter a tal FORÇA que todo mundo sempre fala. A força vem no momento que você aceita o estado de saúde da sua mãe ou do seu pai. Não adianta questionar a vida perante os fatos que ela apresenta. A chave é equilibrar essa força com serenidade, é um exercício mental que deve ser praticado diáriamente.

É preciso ter consciência que a vida é um ciclo e que o tempo não volta. Essa é uma consciência que todos deveriam ter em relação aos seus pais, mesmo que a saúde deles esteja perfeita.

Deixo cinco dicas para aproveitar melhor esse tempo:

1 – Deixe que a presença de seus pais seja a maior benção de cada dia de sua vida.

2 – Cozinhe para eles. (Com o tempo vou postar algumas receitas especiais)

3 – Tenha momentos com eles. Saia para tomar um café ou sorvete, assistam filmes juntos, conversem!

4 – Seja positivo. Energia positiva é fundamental.

5 – Seja gentil: agradeça, elogie, faça um carinho, sorria, dê beijos.

A importância de aceitar é que você vai desfrutar melhor o seu tempo com o seu paciente, fazer mais coisas por ele e fazer com amor.

Se alguém quiser que eu conte sobre um momento específico e como lidar com isso, é só pedir nos comentários.

Com amor, Gaby.

flores

Essas palavras me ajudaram muito a aceitar e a enteder a vida como um ciclo. – Gaby.

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